Breve Histórico (por Zuleica)

Deus, Cristo e Caridade

Certos fatos ligam-se de tal maneira um ao outro, que às vezes, tornam-se difíceis e muitas vezes até impossível separá-los por se tornarem  um todo homogêneo, a exemplo do ar que respiramos. 

A História do Movimento Espírita em Caruaru é um desses, pois é a  própria história da AME, visto que se conhecendo a história da AME fica- se conhecendo também a do movimento espírita de Caruaru, em seu nascedouro.

Explicamos os fatos, com os levantamentos feitos através de atas e precisas informações de pessoas altamente confiáveis, dentre elas alguns dos seus fundadores, sendo o principal elo de ligação os já desencarnados Luiz de Freitas e sua esposa Lizete Freitas.

A A.M.E. como é popularmente conhecida, é um marco indelével, em nossa cidade, para todos quantos queiram se interessar pelo Cristianismo redivivo, em Caruaru.

O "Centro Espírita Léon Denis", hoje "Fratemidade Espírita Léon Denis", a Casa Espírita mais antiga da cidade, poderia ser ponto de partida, o fundamento para a História do Espiritismo, nesta terra de Mestre Vitalino, contudo, além de ter tido as suas portas fechadas mais de uma  vez, nem sempre as suas diretorias, em épocas passadas, primaram pelos princípios de Allan Kardec, o que por algum tempo lhe invalidou o nome de Centro Espírita. Por esse motivo é que está sendo tomado por base a AME que, desde a sua fundação, mesmo com dificuldades, sempre seguiu os princípios da terceira Revelação. 

É bom lembrar que as últimas diretorias do "Leon Denis", inclusive a atual, são respeitáveis, dignas de elogio, como qualquer outra diretoria de "Casa Espírita".

Passemos ao Centro Espírita Deus Cristo e Caridade, fundado a 15 de abril de 1951, tendo a seguinte diretoria: Presidente: Teodomiro C. do Amorim; Vice-presidente: Abílio Alves da Silva; 10 Secretário: Júlio Alves da Silva; 20 Vice-Secretário: Elias Henrique da Silva; Tesoureira: Maria Amaral; Vice-tesoureiro: Manuel Teixeira Sobrinho. Comissão Fiscal: Pedro Azevedo, Francisco Ferreira do Amorim e Miguel Amaral.

A Comissão Estadual CEE

Relato do Sr. Luiz de Freitas

Lamentavelmente, o "Deus Cristo e Caridade" teve vida efêmera, desaparecendo por completo com menos de três meses de existência, sem pelo menos ter havido tempo de ser criado o seu estatuto. Este Centro, embora recebesse orientação do jornalista Pinheiro Ramos, residente em Recife, sofreu uma espécie de interferência de dona Helena Moreira Valente, na época, presidente da Comissão Estadual de Espiritismo (CEE), com sede em Recife.

Para quem não sabe, a CEE é um órgão orientador, a exemplo da Federação Espírita Pernambucana. Dona Helena enviou para cá, Dr. Aníbal Ribeiro, com a difícil tarefa de acabar com os dois Centros Espíritas e fazer surgir um terceiro, a fim de seguir a Codificação de Allan Kardec.

Chegando a Caruaru, Dr. Aníbal procurou Luiz de Freitas, não só por ser o seu único conhecido na cidade, como também para unir o útil ao agradável, ou seja, conhecer as nossas paisagens, ver nossas ruas e principalmente apresentá-lo aos dois presidentes dos Centros Espíritas: o "Deus Cristo e Caridade" e o "Léon Denis".

Fato que bem poderíamos chamar de pitoresco é o que vamos citar agora: Logo após os contatos iniciais, Dr. Aníbal vira-se para Luiz de Freitas e num gesto aberto e leal diz: - Luiz, venha fazer parte do Movimento Espírita nascente na Capital do Agreste. Luiz de Freitas responde com um veemente não, para desencorajar definitivamente Dr. Aníbal de um possível novo convite, como normalmente fazem algumas pessoas tentando se livrar de um vendedor de livros que lhes batem à porta.

Por essas palavras fica bem claro que Luiz de Freitas, o homem que posteriormente foi o baluarte do Movimento Espírita em Caruaru não se interessava pelo Espiritismo. São as coisas da vida.

Voltemos ao que interessa. Acontece que Dr. Aníbal, bom médium clarividente, com a sua visão psíquica, anteviu o futuro e, na sua tela mental, estava a figura de um cidadão alto, magro, de poucos cabelos na cabeça. Esse homem que lhe aparecera, não era outro, senão o próprio Luiz de Freitas que ele via plenamente entrosado no divino mister. Por esse motivo, Dr. Aníbal fez um sorriso discreto e imperturbável, continuou a sua conversa, sem dizer mais nada.

 

A Fundação

Relato do Sr. Luiz de Freitas

O lago sereno, com águas claras e frescas, vez por outra, é ligeiramente invadido por ventanias e águas barrentas, mas logo passa a tempestade e, esse movimento aparentemente perturbador desaparece, cedendo lugar a um lago de maiores proporções, mais volumoso, ainda mais pnmoroso.

lac seul lodge sunset over lac seulAssim aconteceu com o "Deus Cristo e Caridade". Sofreu um vendaval, seus diques não resistiram à pressão, suas comportas se romperam e por força de um aperfeiçoamento moral, imediatamente houve necessidade de uma nova construção, construção de grande porte espiritual, a exemplo das originárias igrejas do Caminho, da época do Cristo.

Essa nova construção tinha de ser espiritual e também material e assim surgiu de início uma casa com paredes revistas de reboco mal-acabado, cadeiras que afundavam no chão de terra batida, por falta de cimento ou mosaico, piso usado na época, o que hoje seria cerâmica. A construção material era com as mesmas dificuldades de hoje, conhecidas por todos que começam uma obra sem ter o dinheiro suficiente para concluí-Ia, mas a construção espiritual vinha agora com diretriz segura fornecida pela Comissão estadual de Espiritismo (CEE), cuja presidente era a nossa já conhecida dona Helena Moreira Valente.

Não foi com toque de mágica, nem com varinha de condão que se verificou essa transformação. V árias reuniões foram realizadas, sendo algumas no próprio Centro e outras na casa de dona Argemira Fonseca, conhecida por seus familiares e amigos pelo carinhoso nome de Maninha.

Os argumentos apresentados, o prestígio moral dos componentes da reunião que eram Júlio Alves, Maninha, Luiz de Freitas, Lizete Freitas, Dr. Alfredo Ramos, Dr. Rômulo Halliday e outros nomes que lamentavelmente não conseguimos saber fizeram com que Teodomiro Amorim, presidente do Deus Cristo e Caridade aderisse à extinção do Centro que ele presidia para ceder lugar a outro, com o nome de Associação Municipal Espírita (AME), cuja sigla já diz tudo: ame!

A A.M.E. foi fundada a 20 de novembro de 1951 e até hoje, funciona sem interrupção divulgando o Espiritismo como nos incentiva o sublime Emmanuel.

Não é o estudo da árvore genealógica de uma família que vai nos dizer do valor moral de seus frutos, O estudo da "árvore" pode falar da riqueza e nobreza dos "galhos dessa árvore", pois só os frutos colhidos, ou AAseja, os modos e atitudes dirão dos respectivos valores morais de cada membro. 

A Primeira Diretoria

Relato do Sr. Luiz de Freitas

A A.M.E. começou a realizar seus trabalhos na mesma casa simples, alugada, na Rua Amarela, depois Marquês de Herval, onde funcionava o "Deus Cristo e Caridade".

Luiz de Freitas, aquele mesmo cidadão que na primeira reunião disse um NÃO bem grande ao Dr. Aníbal, agora, em menos de um ano, de existência do novo Centro, já era um dinâmico trabalhador, participante ativo das decisões e iniciativas da AME.

É bom lembrar que ele já era espírita desde 1930 e com o seu "não" e tudo o mais, nunca deixou um instante sequer de trabalhar, de colaborar em todos os setores espíritas, como pode ser verificado neste breve relato.

A primeira diretoria eleita em novembro de 1951, ficou assim constituída: Presidente: Rômulo Halliday; Vice-presidente: Luiz de Freitas; Secretário: Júlio Alves; Vice-secretário: Abílio Alves da Silva; Tesoureiro: José Laércio do Nascimento; Conselho Fiscal: Miguel Amaral, Elias Henrique da Silva, Ariston Alves da Fonseca. Essa mesma diretoria foi reeleita no ano seguinte.

Vejamos a evolução material da nossa querida AME. Passadas as primeiras semanas, Luiz de Freitas pronunciou-se mais ou menos assim: eu nunca fui de pagar aluguel de casa e não será agora que isto irá acontecer. Este prédio nos está cedido pelo prazo de um ano, logo, devemos construir nossa própria casa. Sei que isto exige muito sacrifício, mas com boa vontade, conseguiremos. A casa própria a que se referia era a sede própria da AME.

De início houve ligeiro problema na escolha do local do terreno e dentre os vários observados, surgiu finalmente a decisão: - é este aqui -; o terreno foi doado por João Gonçalves, tendo havida a colaboração de sua filha Juraci Gonçalves, que era espírita.

O terreno ficava numa trilha (não era rua), cuja localização ninguém sabia se ficava ou não dentro de um riacho. Não havia dinheiro nem para comprar tijolos, quanto mais para comprar um terreno. A solução simples foi encontrada. Com a planta do loteamento na mão, alguns "topógrafos" improvisados foram até o local.:

- Que alegria! Estamos salvos! O terreno não fica no riacho.

Alguém falou: escapamos por seis metros de distância.

Todos concordaram em aceitá-Io como o local defmitivo para a sede própria do novo Centro.

Aquela antiga trilha, leitor amigo, é hoje, como sabemos, a importante Avenida Professor José Leão, praticamente no centro da cidade e aquele riacho que quase atrapalhava a aquisição do terreno, é uma galeria que praticamente ninguém sabe que existe.

Podemos acrescentar que o Alto iluminou, inspirou as pessoas encarregadas da fundação da querida AME.

José de Arimatéia e o sepultamento de jesus

As comissões para construção do Centro se organizaram com muito trabalho pela frente contudo, aos poucos, foi surgindo a modesta Casa, cujo patrono é o Espírito José de Arimatéia.

As contribuições chegavam, conta o confrade Luiz de Freitas, nem lentas, nem aceleradas, apenas o suficiente para "tocar o barco" para frente. 

Em menos de um ano de construção, mais precisamente, em agosto de 1952, o salão achava-se em condições de ser utilizado para as reuniões públicas doutrinárias.

Sem acabamento, ainda "no preto", mas para alegria de todos, as palestras iam sendo realizadas na nova sede. As cadeiras afundavam no chão de terra batida. Quando terminava a reunião, algumas cadeiras tinham afundado até dez centímetros, o que fazia o espectador ficar com os joelhos à altura da cintura. Coisa secundária, diziam os otimistas; os realistas falavam: com o tempo tudo isso será consertado.

De fato, com o tempo colocaram mosaico no salão (na época não havia a cerâmica, como a conhecemos hoje.